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The First Man on Mars


 
written by Al Cruz on March 04, 2003 | contact me
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CAPÍTULO I: Os eleitos e as razões dos eleitores

O primeiro homem em Marte por pouco não foi uma mulher.

A possibilidade tecnológica de para lá viajar em muito menos do que os prazos originalmente previstos fora a causa principal da idéia. Não havia uma única pessoa na Terra que soubesse dizer o prazo da viagem, porque as tecnologias descobertas nos últimos catorze anos eram de quase meia centena de hipóteses diferentes.

A descoberta da física extra-molecular lançaria centenas de jovens doutorandos em busca de novos caminhos, e eles aprendiam rápido, porque novas possibilidades surgiam ainda mais rápido.

A maioria dos físicos e matemáticos, porém, ainda não entendia sequer o que a expressão designava.

Não importava. O próprio homem que passava por fundador da nova física declarara certa vez que jamais usara tal expressão, a qual surgira numa entrevista sua a uma cadeia de jornais, ou seja, um veículo que não guardava a memória gravada da verdadeira conversa. Qualquer que fosse o nome, entretanto, e por mais arbitrário que ele fosse, as incríveis fórmulas envolvendo pelo menos sete dimensões diferentes ali estavam disponíveis para quem as pudesse compreender (produtos de programação, havia dúvidas sobre se isso ocorreria um dia por parte dos próprios e surpreendidos programadores) e delas lançar mão na rede.

Além disso, o programador tido como fundador, ele mesmo, esquivava-se com freqüência do peso do título, fosse porque desconfiava que aquilo poderia ser apenas mais um tipo física para poetas, fosse porque ele simplesmente achava que não mais haveriam autores de algo isoladamente. Sua alegação era de que tudo que utilizara já existia antes, apenas não tendo sido justaposto.

E, mais uma vez, nada disso importava. O que estava em jogo era a simples hipótese de se chegar a Marte em pouco mais do que uma semana, ou, como se descobriu numa apressada revisão dos cálculos entre a primeira e a segunda conferência de imprensa, pouco menos do que uma. (Alguém perguntara então se, caso convocada uma terceira, havia a possibilidade de que fosse anunciada a possibilidade de se chegar a Marte em prazo menor do que a histórica primeira ida a Lua).

O resto viera como conseqüência: fim do medo do efeito solidão na viagem, economia – a maior praga que assolara o planeta desde a antiga AIDS e desde o apagar das luzes da ilusão socialista até mesmo entre os mais radicalmente teimosos utópicos sociais radicais, mas de qualquer maneira um objetivo – além de diminuição do risco de perda para uma única pessoa, e, é claro, Carmem, a astronauta porto-riquenha emigrante, com um QI que se suspeitava não ter sido alcançado por nenhum outro astronauta anteriormente, e...bem, ela poderia ter sido tudo na vida, porque além do QI havia ainda aquele olhar cintilante contrastado pela pele de um moreno onde brilhava um tom que lembrava vagamente a vaga cor da úmida areia de uma praia próxima às ondas numa noite de lua cheia com a lua em seu mais próximo ponto da terra...As pessoas se perguntavam com freqüência se ela não teria sido escolhida por sua virtude ainda no lendário século vinte um mais propícia à criação de carisma: beleza, uma beleza radical e estonteante como poucas vezes se vira.

Foi preciso acenar continuamente com o fato de que Carmem era um dois únicos astronautas da história que haviam escrito artigos científicos sobre ciências, no caso física e matemática. Para quem desconfiasse, entretanto, de que se estava mandando ao espaço alguém que poderia fazer mais pela velha e boa Terra lá ficando e produzindo ciência teórica, havia o fato em contrário de que, dos seis artigos que ela publicara nas melhores e mais respeitadas revistas de ciência, dois começavam com a velha expressão “Contribuição para...”, e outros dois com a também nada original “Apontamento sobre...”, num total de quatro em que se percebia de saída ao menos o risco do velho costurar algo menor entre dois extremos não muito explorados porque secundários que caracterizavam muito do que se lia nas revistas especializadas. E estes eram os bons artigos de Carmem. Os outros, bem, os outros eram não tão bons assim. Tranqüilizados, os pareceristas finais sobre sua ida acreditavam ver ali muito mais uma firme construção de um currículo científico capaz de contrabalançar a suspeita de que beleza fosse o trunfo maior num jogo disputado cordial mas bastante competitivamente.

Entretanto, a idéia de que o primeiro homem a chegar a Marte poderia ser uma mulher durou pouco. Logo, haveria outra surpresa, naqueles tempos em que já se falava da necessidade de ter um cientista pesquisando temas científicos e outro ao lado pesquisando o que se encontrara sobre os mesmos temas a cada dia – com o risco do primeiro não conseguir acompanhar o segundo. E a nova surpresa era mais séria do que parecia a princípio: todos os cientistas que se empenhavam em procurar novas técnicas estavam se tornando unânimes ao afirmar que levar alguém a Marte por princípios de física não-nuclear poderia levar Carmem ou quem fosse o astronauta a atingir não propriamente o quarto planeta, mas também Marte de um possível período de alguns milhões de anos antes. Em outras palavras, de uma outra dimensão...O fundador da física não-nuclear que desprezava e desconhecia o nome que se dera ao que ele descobrira, diante dos novos cálculos, conceitos e premissas que jorravam abundantemente dos computadores começava a achar que, se aquilo chegara a parecer, para ele, uma das muitas físicas para poetas, talvez fosse um indício de que ele deveria um dia freqüentar um curso de poesia para físicos...

A inesperada hipótese de enviar sem querer Carmem para algum tipo de inferno de outra dimensão em lugar de para os céus, àquelas alturas em que Carmem se tornava pouco a pouco conhecida de todos, não apenas por sua beleza, mas também por sua competência profissional, completamente impopular hipótese foi, por sua vez, rapidamente substituída pela procura de novos sistemas críticos, muito semelhantes aos antigos sistemas matemáticos de análise aleatória, ampliado quase um bilhão de vezes pelas novas possibilidades de informática.

Tudo isso, é claro, terminara por fazer escolher a primeira ida à Marte pelo sistema convencional. E também levara, é claro, a Paul.

Agora era pacífico: os primeiros homens a chegar a Marte seriam um homem e uma mulher. Um casal. Acabara-se a velha resposta à pergunta “que livro você levaria para uma ilha deserta” (a última resposta considerada cem por cento satisfatória num programa costa a costa no novo século dos séculos fora: eu levaria a minha mulher – qualquer que ela fosse na ocasião).

O pragmático século ainda relativamente novo – umas quantas décadas dentro de um novo milênio pareciam tornar mais legítimo o conceito do que o fora naqueles primeiros anos em que absolutamente tudo provinha do milênio numéricamente antigo – parecia considerar pacífico que haveria ali algum romance.

E poderia haver, é claro.

Porque uma vez percebido e aceito que haveria o tradicional prazo de algo como dois anos de viagem a Marte, automaticamente começou a se pensar que o segundo lugar na classificação, o qual competira, felizmente para os brios da espécie, a um homem, era, em verdade, segundo sussurros e cochichos mais ou menos unânimes entre a ala feminina, um razoável equivalente masculino para Carmem.

Isto poderia auxiliar bastante na consecução de um bom “estado de arte pessoal”, como alguém dissera criando rapidamente uma expressão que só poderia ter sido criada ali ou em 1968, quando do já esquecido vôo de Borman, Lovell e Anders ao redor da lua que antecedera em um ano o pouso de Armstrong e Aldrin enquanto Collins permanecia em órbita como seus antecessores de três vôos.

Quanto a Carmem, estava tudo OK. O mais sua foto era publicada, mais as pessoas pareciam achar inevitável e natural o que se deveria seguir.

Mas, quanto a Paul, isto era verdadeiro apenas desde que não se divulgasse excessivamente sua foto. Numa tradicional galeria de amplos sorrisos, Paul era o mais sério astronauta que já se conhecera.

Havia apostas no sentido de que alguém pudesse brandir uma foto sua em que ele fizesse algo que lhe era um procedimento incomum: sorrir.

Naqueles tempos de astronautas que tinham uma formação cada vez mais marcadamente científica, Paul, infelizmente, havia aderido ao menos popular de todos os sintomas que a prática diária e exaustiva do procurar a exatidão e uma verdade em mutação permanente produzia entre a classe científica.

Por outro lado, de seus apenas cinco artigos científicos em importantes revistas, todos começavam com Contribuição para... ou Apontamentos sobre..., o que parecia estranho numa época em que estas palavras já estavam em desuso, e mais estranho ainda quando confrontado com o material de Carmem. Só então alguns jovens cientistas começaram a desconfiar de que as mais sérias revistas científicas haviam pesado talvez mais do que o devido o fator marketing ao publicar artigos de astronautas.

Segundo os poucos leitores capacitados a entender os artigos de Paul, também, não havia absolutamente nada neles que desconfirmasse tal impressão. É claro, quanto a Carmem, tinha sido impossível colher qualquer impressão desfavorável a seus artigos no meio científico, pelo menos na ala masculina – mas todos negavam veementemente que a publicação de sua pequena foto como já era moda há uma década e meia em algumas das revistas influenciasse tal convicção. A maior parte dos jornalistas não se dava conta de que os cientistas só começavam a usar a palavra convicção quando ameaçados (até então, indícios era bastante mais utilizada) e perdiam, por isso, muito do humor da situação. Mas havia progressos: já existia quem pensasse que talvez os jornalistas um dia chegassem ao mesmo nível de bom humor do que os cientistas. Outros ainda pensavam que talvez ele não fosse notado pelos cientistas, assim como o seu não era percebido por aqueles.

Mas este tipo de conversa aparecia mais entre chefes de divisão que necessitavam descontrair o ambiente antes da matéria técnica propriamente dita, e portanto continuava restrito.

Tanto Carmem quanto Paul, é claro, em sua condição de pioneiros potenciais preferiam não lançar mão de qualquer humor em suas conversações. Seriedade e cortesia bem mescladas, sabiam de longa data, podia operar milagres ou não, e portanto era preferível não diminuir os relativamente escassos caminhos para o sucesso que se apresentam a quem quer que deseje algo um pouco acima da média neste planeta – ou para ir mais além dele.

CAPÍTULO II: A ´Tempestade de Areia do Século.

Sim: admiração, respeito e convivência sempre fazem seu trabalho. Em pouco tempo, Carmem e Paul estavam casados, e Carmem usando esta frase para explicar como tudo acontecera.

E como isso aconteceu?

Bem, na velha tradição, logo após o casamento, coube a Paul, com forte diminuição de seu prestígio junto a seu público feminino, que por unanimidade não simpatizou mas tolerou, o fato dele tornar um tanto mais precisa a frase de Carmem:

- Admiração, respeito e convivência foram o início. Ausência de temor foi o selo final de qualidade.

As áreas de humanas não gostaram nem um pouco da última palavra, mas as de administração gostaram de ver a palavra da moda ali, sem sequer desconfiarem que era um mero retorno inesperado de um conceito antigo. Em pouco tempo, entretanto, astronautas de modo geral voltaram a perguntar como ia o “estado de arte” do casamento, e a clássica expressão constante do livro de Virgil I. Grissom, pioneiro e mártir, trouxe paz e recapturou a simpatia das áreas de ciências humanas.

Em verdade, era a primeira vez desde a época das primeiras viagens à Lua, Apolo 8, a circunavegação, Apolo 9, o acoplamento no espaço para treinar o retorno da cápsula que na Lua pousaria, Apolo 10, a segunda circunavegação, e Apolo 11, a alunissagem, palavra criada então, que se atingia tais níveis de audiência, quaisquer que fossem as notícias sobre Carmem e Paul. E, como só percebeu um até então tido como distraído, apesar de professor de escola jornalística, Hans Peter Kramm, na Alemanha, era a primeira vez que dois astronautas eram instantâneamente conhecidos somente por seus respectivos prenomes!

Logo Kramm ficaria famoso com sua tese de rígida linguagem universitária, Desatenção Coletiva na Percepção Social Integrada da Midia.

Claro, tudo colaborara para que aqueles dois prenomes se tornassem os mais famosos da história da humanidade, desde o anúncio do casamento.

E ausência de temor como selo final da qualidade era, em verdade, um belo acréscimo como virtude ao casal então mais famoso do mundo, mesmo vindo através de um lembrete que parecia quase uma admoestação.

Mas Carmem, de forma memorável, Carmem fez sua parte, para tirar qualquer aparência de admoestação da fala de Paul a esse respeito. Como o resto do estúdio, do silêncio geral, que preencheu a ampla construção e também todas as demais instalações como quando se espera por uma tradução mais clara do que se acabou de ouvir. Depois, ela ergue-se de sua cadeira, obrigando todos os homens de câmara a fazer cortes, movimentos imprevistos e desesperados que nas cabines por sua vez desesperaram a equipe de continuidade.

O que se seguiu então seria reprisado centenas de vezes nos próximos anos (Somente o jovem Hans Peter anotou: poucas cenas da história da humanidade posterior à segunda guerra mundial seriam reprisadas em qualquer veículo, cinema ou TV, até a dezena, o que dirá centenas de vezes...).

Carmem dirigiu-se rapidamente para Paul e este foi surpreendido pelo primeiro beijo na boca que um casal de astronautas concedia às câmaras de TV do planeta, e logo ela trouxe sua cadeira para perto, sentou-se ao seu lado e colocou sua mão sobre a dele.

Ao fundo da grande sala de estúdio, alguém gritava a seu fone, para ser captado pelos cameramen:

- As mãos! Um close das mãos deles!

O operador de vídeo, vendo a surpresa imobilidade geral de alguns segundos na realidade do estúdio, mas uma eternidade perdida na realidade do vídeo, arrancou o fone e gritou de modo a ser ouvido por toda a sala:

- Um close nas mãos deles, patetas!

Mas não funcionou. O que apareceu nas indiscretas telas não muito pequenas do século 21, em atrapalhado improviso, era uma generosa visão das pernas elegantemente cruzadas de Carmem explodindo no vídeo em viçosa beleza.

Todos riram, e também é, claro, Carmem e Paul.

Sisudos senhores acionistas e executivos de faces normalmente imperscrutáveis riram também, para alívio do operador de vídeo e dos homens de câmaras, os quais, ao se darem conta do equívoco, cortaram direto para o sorriso de Carmem, dando ao episódio um aspecto de serena sensualidade em lugar de uma açucarada love story perdida dentro do novo século.

Hans Peter Kramm publicou então seu segundo livro, o qual, em lugar de se tornar um bem comportado volume perdido nas prateleiras das bibliotecas de faculdades de comunicação, se tornaria seu primeiro best seller, com o título que horrorizou toda uma geração de críticos literários, e todos os seus colegas de ensino de mesma área que, em todo o planeta, haviam lido, louvado e recomendado o livro anterior. O novo título realmente só agradava ao público. Fé move montanhas, amor move cadeiras.

O título não importava, o livro tampouco, o que aquele beijo demonstrara, porém, era claro: o vermelho planeta da guerra ia receber do planeta azul dois emissários do amor, e não um mero casal de convenientes seres sociais.

Cumpriam-se assim velhas e talvez prudentes receitas de alguns dos mais renomados entre os antigos escritores de ficção cientítica: personagens do século 21, mas com persistentes hábitos solidificados no século dezenove, diziam alguns que ainda lembravam da ficção científica do século 20 – a qual, por sua vez representava tudo quanto podia existir de mais próximo à expectativa de que arte é algo que se deve fazer para alicerçar as entrelinhas do futuro.

A reviravolta, é claro, era grande. Ninguém esquecera o enfoque inicial quando, ao tempo em que Carmem e Paul eram meros colegas que mal se conheciam, quando um entrevistador astuto, com um trilhão de horas ao vivo na TV a mais do que o casal de astronautas, depois de ensaiar cuidadosamente um suposto texto prévio da entrevista, virando-se inesperadamente para longe de Carmem que parecia à vontade respondendo por e respondendo a praticamente toda a entrevista, fez, com a delicadeza e a alegria de quem coloca uma lança em cunha entre as costelas de um adversário a ser derrotado, a pergunta básica, maliciosa, elementar:

- Diga-me, Paul, vocês estão apaixonados? (Tell me, Paul, are you both in love?)

Por momentos, o silêncio deixaria ouvir a respiração dos câmaras, estivessem eles mais perto. E então, Carmem voltou a sentir tudo ao seu redor como estrangeiro quando ouviu a resposta de Paul na língua que inesperadamente havia voltado a soar estrangeira para ela:

- No, we're just friends.

O silêncio deu uma volta sobre si próprio e caiu sobre o assoalho espatifando-se em risadas que flutuavam pelo ambiente como cacos de vidro em gravidade zero.

Ao redor do mundo todo – porque, é claro, aquilo era ao vivo e por TVs abertas, canais por assinatura e pela web, homens de lata de cerveja em punho e gorduras indesejáveis confortavelmente espalhadas sobre agradáveis poltronas selecionadas ao longo de toda uma vida não resistiram: Após aquele “Ha!” que só uma garganta pertencente a um corpo devidamente avantajado pelo ingresso já nem tão próximo na segunda parte do caminho para o que a medicina prometia ser o segundo século completo de vida perguntavam-se, sozinhos na sala:

- Quem ele pensa que é? Paul McCartney?

E havia mais. Afobadamente, tão afobadamente que voltava inclusive a se expressar em sua própria língua, como ocorre com pessoas que de tão longamente falar outra língua acreditam jamais se verão forçadas a recorrer, por emoção, pressa ou inesperada ocorrência, àquela em que ouviram e disseram as primeiras palavras, Carmem, mesmo fora das câmaras, tomara a palavra:

- No...eso no es..(Não...isto não é...).

E, quando a câmara voltara a focá-la, acrescentara, rapidamente e de um só fôlego:

- ...eso no es verdad.

E, quase inaudível, repetiu em inglês, baixinho:

- Isto não é verdade.

É claro que, no mundo inteiro, com os filmes nas telas de televisões e computadores aumentando vertiginosamente, havia a pergunta obrigatoriamente presente quando se assistisse em inglês – e mesmo fora do Estados Unidos, aumentava cada vez mais o número dos países onde se passavam filmes em inglês sem legendas - um filme de Marlon Brando:

- O que foi que ele disse?

- Não foi ele, foi ela. Você está ficando surdo.

- OK, ela. O que foi que ela disse?

- Que não é verdade.

- O que não é verdade?

- Que eles são apenas bons amigos.

- Então, são mesmo...

- Vamos ver, vamos ver, o programa está recém no início...

E então, a prudente Carmem fez o estrago final:

- Temos apenas um relacionamento estritamente profissional.

Foi o fim, para sempre, de quaisquer comentários a respeito na fase que antecedeu o casamento.

A maior parte, para não dizer todas, ou, como gosta de afirmar a midia, a esmagadora maioria dos documentários que pelo século afora passaram sobre Carmem e Paul costumava cortar daqui para a viagem, mostrando-a já em sua parte final, quando poderiam ambos enxergar, pela primeira vez na história da humanidade, a olho nu as configurações do planeta.

Mas não porque aqui se iniciassem as primeiras descrições a partir da visão pessoal.

Uma surpresa nada agradável quanto à possibilidade desta visão iria ocorrer.

O final do século vinte e o início do século vinte e um seriam uma verdadeira tortura para astrônomos, profissionais ou amadores, aficionados aflitos, ou mesmo meros espectadores, atentos às publicações de fotos de Marte. Com quase meia centena de lançamentos para lá, e quase cinqüenta por cento de fracassos, a expectativa em relação ao que se veria nas câmaras ou nas fotos que as mesmas enviassem era muito superior ao que cautela e boa informação sugeriam devesse ser esperado. Distância, velocidade vertiginosa, e discussões ferozes e intermináveis sobre como ampliar o material visto faziam estragos entre restritas, mas ardorosas legiões de polêmicos, fazendo depois retornar aos poucos a velha prática do tédio desinteressado e um tanto reconfortador pelo que todo ato de tédio verdadeiro contém de paz iniludível.

O século 21 não estava assim tão diferente do anterior.

A tempestade, desde o início, manifestara-se com o gigantismo habitual com que as mesmas ocorriam no planeta. Começara nas grandes planícies, e por elas se estendera longamente antes de erguer seu véu de garras invisíveis mas planetárias, e começar a engolir paulatinamente desfiladeiro por desfiladeiro, paisagem por paisagem, planície por planície, das grandes às pequenas, das pequenas às grandes marcas de relevo, fazendo com que, mesmo à distância ainda tão grande como aquela em que se encontravam, Carmem e Paul reavaliassem seus sentimentos quanto ao que iriam viver, e quanto ao que iriam encontrar.

Eles não eram religiosos, como não o eram quase todos os astronautas antes de passar pela longa e esmagadora experiência do espaço, pela qual eles passariam com vigor a que astronauta nenhum jamais fora submetido. Não precisavam ler Pascal, o filósofo francês autor da mais famosa das frases sobre o espaço de todos os tempos, para sentir a mesma sensação que ele, melhor do que ninguém no agora diminuto mas ainda azul planeta expressara: O silêncio infinito destes espaços eternos me faz medo...

E, mesmo não sendo religiosos, e , mesmo tendo a seu dispor apenas as religiões de seu agora distante planeta, sobre uma coisa eles pareciam concordar em mudo silêncio, sem precisar falar disso: Quaisquer que fossem os velhos deuses do aterradoramente fascinante planeta vermelho, eles sabiam como ocultar com eficiência os eventuais segredos de seus já desaparecidos adoradores, caso eles tivessem existido, diante da iminente chegada de elementos absolutamente estranhos e, diante de deuses protetores, como deveriam ser todos os deuses, diante de seres estranhos ao velho planeta vermelho, e, portanto, potencialmente inconvenientes a seu mundo...

Nada a fazer a respeito. Leitores de material histórico lembrariam aquela velha e atordoante tempestade que frustara toda a atenta comunidade de perscrutadores dos céus ao redor do belo planeta azul quando pela primeira vez um artefato, então não tripulado, a Mariner 9, após algumas céleres, vertiginosas, passagens de outros artefatos para se perder na imensidão do cosmos, fora colocada em órbita ao redor de Marte. Lançada em 30 de maio de 1971, viajara pelo espaço 167 dias, com uma única correção necessária de rumo, e entrara em órbita em 13 de novembro de 197l, apagando para sempre a idéia de que o 13 fosse um número de azar, pelo menos ante leitores atualizados com o que ocorria no que os mais antigos filósofos da Terra chamavam de mundo, a saber, o universo, agora já antevisto em parcelas a partir do próprio sistema solar.

O azar ocorrera, isto sim, em 22 de setembro de 1971, quando a Mariner 9 tinha ultrapassado o ponto médio de sua viagem a Marte, e apareceram então os primeiros sinais de uma tempestade de areia entre o equador e o Pólo Sul, na região do meridiano principal, em um local chamado Noachis por Schiaparelli, como narrara cuidadosamente um escritor de ficção científica no primeiro livro de não fiçcão sobre uma chegada ao planeta vermelho escrito por um, em 1977: Marte, do mesmo Isaac Asimov das imortais histórias de robôs, e de uma saudável prolixidade.

“A tempestade se espalhou cada vez mais, e quando a Mariner 9 chegou e entrou em órbita, a tempestade mostrou-se como a pior jamais observada em Marte. O planeta inteiro ficou escondido, e nem as calotas polares podiam ser vistas. Era como se a natureza tivesse conspirado para manter Marte em segredo.”

Então, bons leitores de 17 a 25 anos lembravam, fascinados, o conto de Ray Bradbury em O Homem Ilustrado em que, diante da chegada dos terráqueos, os personagens e autores de literatura fantástica que haviam se refugiado em Marte diante do materialismo reinante na Terra desapareceram, esvaneceram-se enquanto as cidades de vidro se estilhaçavam e recuavam para os horizontes, desaparecendo.

Carmem e Paul, porém, estavam mais preocupados com o que lembravam da não ficção de Asimov. Porque haviam justamente passado do ponto médio da viagem e, a tempestade de areia rugia furiosamente subindo para os céus como se abrisse os longos braços para aguardá-los. E o fazia partindo de algum lugar entre o equador e o Pólo Sul...

Como um casal que eram agora, Carmem e Paul às vezes não precisavam falar, e isto se dava exatamente quando a mesma coisa estava no pensamento de ambos:

ISTO ERA UM PADRÃO?

Claro, havia ainda um problema maior, desta vez.

Evidentemente, a primeira vigem tripulada a Marte era destinada a examinar de perto a água, e a água, depois de muitas reviravoltas, ficara comprovado estar indiscutivelmente situada no polo sul.

Exatamente onde a tempestade era mais cerrada...

Hans Peter Kramm escreveria agora não uma nova tese, nem um livro propriamente popular, mas um acessível prefácio a sua antiga tese, acrescentando o fato de que ninguém se perguntara até então qual era a missão ou o ponto de chegada.

Para não perder a fé em sua própria percepção, a humanidade começava agora a não mais ler Hans Peter. Ele tivera seu tempo sob os refletores.

Agora, a nova estrela do show não era nem a bela astronauta nem a surpreendente tese de Kramm de que parecia mais fácil enganar todos o tempo todo do que poucos o tempo todo ou todos por pouco tempo.

A nova estrela do show era a tempestade do século. E, é claro, no século 21, a tempestade do século não era na Terra, onde pouco a pouco elas passavam a fazer parte do quotidiano de tragédias servido pelas telas de TV como antecipação ou como complemento da última refeição do dia.

Agora, a tempestade do século seria sempre em Marte, mesmo quando, como se sabia, havia uma tendência daquelas gigantescas fúrias dos elementos do planeta vermelho se repetirem a cada dez anos, um número que alegrava numerologistas, místicos e um sem fim de charlatães que tentavam a todo custo fazer crer que o sistema decimal não era apenas uma escolha de uma raça que tinha dez dedos na ponta de cada membro, superior ou inferior, mas sim algo algum tipo de significado maluco.

CAPÍTULO III: Eu Sou Muito Velho. Nem Sequer Sei Quanto.

No princípio era o temor. Depois a palavra foi criada para aplacá-lo. Pelo menos era o que Paul começou a pensar à medida que conversava mais e mais com Carmem. Uma simples e única coincidência não poderia ser vista jamais como um padrão. Além disso, a gigantesca tempestade começou a melhorar surpreendentemente à medida que a espaçonave chegava-se mais e mais para perto de Marte.

Superocupados, Paul e Carmem ficavam cada vez mais, como qualquer casal, excessivamente concentrados em suas tarefas, ficando, como qualquer casal que trabalhasse junto, progressivamente tão atentos ao que faziam que mal poderiam se preocupar.

E, generosamente, os deuses do velho planeta vermelho abriam suas faces, pelo menos no que dizia respeito ao Polo.

Havia, é claro, um tempo livre. As experiências do espaço anteriores comprovavam que o ser humano precisava devanear, falando claro.

E, como no fundo eles não podiam se dar ao luxo de se concentrar em lembranças sobre a terra, em seu tempo livre, suas atenções se dirigiram exatamente para a leitura, o que exigia uma concentração de forma a impedir nostalgias do azul lar a se tornar progressivamente mais distante, e, por conseqüência, de tudo que dissesse respeito á terra. Conseqüência imediata: as atenções de Paul e Carmem se concentraram quase imediatamente após a partida em ficção sobre aquilo que era o seu objetivo. Como dissera um dos autores dum estimado site freqüentado por Paul em sua adolescência em e-mail certa vez, ficção era importante, uma vez que era sempre nela que pela primeira vez se pensava em ir a algum lugar nos céus onde cor e luz tramavam o duelo da beleza e do encanto. E ficção era, ainda, aquilo que construía a lenda magna, o arquétipo a ser preenchido pelo até lá ir, e querer lá chegar.

Quando Carmem procurava o que ler, perguntou, antes de mais nada, o que estava o próprio Paul lendo, e este lhe disse com clareza: o belíssimo A princess of Mars, de Edgar Rice Burroughs, e The prince of Mars, de John Carter Hall, o qual, percebia Carmem era o que passava mais tempo ocupando a tela, às vezes com o rosto a sonhar, distante, como se em marte já estivesse.

- Devo confessar que prefiro Edgar Rice Burroughs, dissera Carmem.

- Oh, sim, respondera Paul, o original era sempre melhor.

Para Carmem, estava lançado o primeiro pequeno enigma da recém iniciada vida conjugal de ambos.

Como podia, naquele caso, o original ser o melhor, se o livro que fazia Paul devanear – e a idéia de ambos era a de que a leitura conduzisse ao devaneio, ao repouso universalmente reconhecido como ideal, precursor de e indutor ideal do supremo repouso, aquele do sono diário era o outro, o de John Carter Hall, cuidadosamente pastichado da obra de Edgar Rice Burroughs?

Mais curioso ainda, Paul gostava de repetir a frase inicial do livro do velho Burroughs: “I am much old. How much I don´t know.” E, por vezes, todo o trepidante primeiro parágrafo, prodígio de ritmo, encantamento, e mistérios a esclarecer: “Já morri duas vezes”...

Paul podia se dar ao luxo, inclusive de mencionar o título com o qual o livro fora originalmente publicado nos velhos seriados impressos dos primeiros quarteirões do século vinte: Under the moons of mars. Sob a s luas de Marte...

Era quase inacreditável o quanto o velho seriado de 1912, publicado em 1917 sob a forma de livro, podia competir com a realidade do presente, e com o turbilhão de checagens e de experiências a realizar no vácuo.

Algumas entrevistas “ao vivo”, com os muitos minutos entre uma pergunta e sua resposta preenchidos por espaços comerciais oportunamente cobrados em milhões de dólares. TV e rádios achavam que Marte era o veículo ideal para entrevistas, já que tinham janelas de tempo prontas entre as perguntas e as respostas para serem preenchidas com comerciais que os espectadores eram obrigados a acolher sem trocar de canal. Nem o próprio Robert Zubin, com seu otimismo nato e seu bom humor instintivo, havia percebido tal razão de venda.

Haviam ainda outras leituras, e curiosamente, eles estavam chegando à conclusão de que, como o vinho, as melhores safras eram antigas.

Paul leu então The fist men in the moon, Os primeiros homens na lua, por H. G. Wells.

Mas a frase ao meio da primeira página sobre a inconsequência do destino para com os planos humanos, o inquietavam, e ele fez uma leitura rápida e por alto do velho livro de 1901.

Afinal, todo viajante tem algum recinto secreto de temor em seu pensamento, o temor gera algum tipo, ainda que benigno no caso dos homens de coragem, de superstição, e Paulo não estava disposto a alimentar nem uma nem outra mais do que o estritamente necessário por fazer parte da condição humana. O segredo da coragem é não dar muito espaço nem tempo ao medo, e substitui-lo pela fixação da atenção sobre outro objeto.

E então, um dia, é claro, como em tudo na vida, o sonho começava a se transformar em realidade.

Eles estavam chegando lá.

Claro, ainda havia tempo para uma última entrevista, e havia tempo para, entre uma pergunta e sua resposta, após os inúmeros comerciais que ficavam intercalados entre elas, colocar um lembrete com qual exatamente tinha sido a pergunta.

Como sempre ocorria, Carmem ficava novamente com a sensação de estar vendo uma língua estranha justamente quando as expressões eram familiares em excesso. Porque era uma familiaridade que ela precisava recuperar. Por isso, tinha que conter a irritação quando reconhecia velhos conteúdos:

- Vocês já tiveram alguma briga durante a viagem, Carmem?

Respirando fundo, ela respondeu com voz sibilina e rosto irado:

- Oh, sim.

O planeta ficou em suspense. Não que alguém estivesse preocupado com a resposta, mas sim com a transparente irritação.

Com nenhuma demonstração aparente de perceber a irritação, o jornalista entrevistador prosseguiu, com naturalidade muito bem disfarçada na voz completamente cordial:

- Podemos saber a respeito do quê?

- É claro.

Nos quase oito minutos que mediaram entre a resposta acima e a pergunta anterior, a resposta de Carmem já estava viajando para a terra, imediatamente, mas ela não pôde deixar de sorrir com o canto dos lábios durante este tempo, por saber o que provocara de intervalo.

Antes da resposta, Paul ainda acrescentara, de forma nem tão inaudível:

- Sai dessa. Quero ver como.

- È fácil. Quer ver?

E, aproximando-se do microfone, respondeu:

- Briguei com Paul porque ele achava que nem toda pergunta feita por jornalista a nossos respeito devia ser respondida.

Mas houvera outra entrevista que fora realmente memorável. As questões haviam começado com uma pergunta sobre a missão de procurar gelo. Após muitas discussões e reformulações, havia sido finalmente fixado que a única questão indiscutível era que no pólo sul havia água. Complicadas discussões afirmavam que no polo norte a calota poderia ser de metano. Isto havia se invertido umas duas ou três vezes, provocando grande perplexidade nos leigos – e leiga era quase cem por cento da população mundial – sobre a exatidão da ciência.

Alguns cientistas foram tranqüilos ao esclarecer que, com o desenvolvimento acelerado da ciência no século vinte e um, ia ser preciso acostumar-se com mudanças rapidas das informações provindas da própria ciência. A verdade de ontem precisaria ser revisada pelo critério científico de hoje, e possivelmente cancelada pelos de amanhã. Enquanto teoria, e manifestação lingüística de dinamismo e mutação, tudo bem, esta frase era maravilhosa. O difícil fora se acostumar com a alucinante mudança em alguns casos práticos como o caso das calotas polares, que aliás não eram nada comparadas com as mudanças, por exemplo, de remédios. Receber uma ligação na calada da noite de seu próprio médico sugerindo a troca do remédio por um medicamente inteiramente novo descoberto naquela semana, e percebido pelo médico na rede mundial de computadores já era uma rotina. E, pior, com a quantidade de novas descobertas, a faixa do que fosse o ser humano ideal, caso a definição quisesse significar um ser humano para o qual não fo

sse recomendado remédio algum, bem, isto era algo que se reduzira dramaticamente nas últimas décadas. Em princípio, teríamos que esperar quase meio século até o nascimento de seres humanos sem falhas genéticas que recomendassem tratamentos preventivos antes que suas conseqüências surgissem.

Paul conseguiu pensar em tudo isso nos minutos de que dispunha antes de uma nova pergunta da entrevista, mas quando ela veio, adaptou-se instantaneamente a ela:

- Verificar água no polo sul de Marte é tudo?

- Não. No prospecto distribuído pela agência espacial estão listadas mais de cento e vinte experiências químicas que devemos realizar no espaço e trezentas e duas em terra. Mas há algo mais do que tudo isto. Há o vencer o espaço em si. Este é o maior desafio que a humanidade talvez já tenha enfrentado. A própria lua poderia perfeitamente ter sido explorada com robôs e fotografada de satélites artificiais com os quais a orbitássemos. Nossas viagens à lua, como esta a Marte são, como tudo que se relaciona ao espaço, uma profunda lição de humildade. São a maior contribuição que poderemos legar às próximas gerações em termos de perda da arrogância e da humildade necessárias, ambas, para nos reconhecermos profundamente contingentes.

Foi um reboliço. A terra inteira se perguntava qual o sentido da palavra contingente, exceto, é claro, repentinamente sorridentes professores ou alunos de filosofia. É claro, a palavra não tinha nenhum outro sinônimo exato, como muitas vezes ocorre. Podia significar finitos, mortais, desnecessários, transitórios, e mais, talvez, como ocorre nestes casos, quase tantas outras coisas quanto outros tantos filósofos já a tivessem usado...Transitórios terminou por ser a escolha favorita da mídia.

Houve ainda uma pequena armadilha, rapidamente superada por Carmem:

- Quem foram os professores de filosofia de vocês, se é que os tiveram?

- Tivemos aulas de humanas, não propriamente de filosofia. A idéia era formar pessoas preparadas para eventualidades completamente inesperadas. Nosso estudo de filosofia corre por nossa própria conta, estimulados por nossos orientadores.

- Isto significa...

- Não recebi sem estática a parte de sua pergunta que excedeu as duas primeiras palavras. Isto significa que nenhuma atividade humana pode prescindir da análise pessoal sobre valores. Agora precisamos desligar para nos concentrar nas nossas atividades de pouso. Agradecemos sua atenção e voltaremos a falar algum tempo após o pouso, ou durante o mesmo, se entendermos possa ser interessante para vocês. É algo a nosso inteiro critério, e depende basicamente do grau de visibilidade maior ou menor, e portanto de nossa maior ou menor atenção necessário ao ambiente em que estamos chegando. O momento exato do pouso será enviado, mas vocês levarão os oitos minutos para recebê-lo. Nossas sondas possivelmente não o transmitirão. É algo que escapa a meu controle, por causa de condições climáticas e conseqüências atmosféricas remanescentes da grande tempestade. Obrigado.

Não havia mais o que se perguntar.

Além disso, em dois anos, milhares de perguntas e questões haviam sido dirigidas, ao vivo, ou dentro do que se poderia chamar ao vivo, com aquele intervalo provocado pela distância, ao casal de astronautas. Mesmo com aquela conhecida e sábia técnica de juntar várias perguntas para obter as mais freqüentes perguntas num resumo, aquilo fora complicado. Carmem e Paul haviam sido consultores conjugais, econômicos e espirituais, mesmo depois de se declararem não conhecedores de quase tudo que estas palavras designavam, e assim mesmo fora necessário explicar que uma coisa era estarem casados, outra opinar sobre casamento de forma útil a terceiros. Amar não é algo muito fácil de raciocinar a respeito, e talvez mesmo nem um pouco.

Com muita sabedoria, a midia eletrônica, do rádio à TV, e desta à web, cortaria todos os aspectos técnicos dos diálogos do casal de astronautas que deliciavam os antiquados escritores de ficção na midia impressa, a tal ponto que mesmo narradores documentariais gostavam de imitar.

Ficara clássica a citação de partes da seqüência de descida.

Contaram-se, naquele momento em que altitude era ainda grande, a distância em km como sendo relativos ao centro de Marte. Isto encerrava a discussão e o risco de equívocos em mencionar a distância em relação a este ou aquele tipo de solo. Planície ou calota de gelo eram as duas mais imediatas alternativas. Planície ou montanha, não estivessem no pólo sul, seriam as outras. Qual montanha ou qual vulcão prosseguiriam a interminável discussão. “Distância do alvo” provocaria intermináveis discussões de mal entendidos de legiões de aficionados de ficção-científica achando que Paul e Carmem teriam ido a Marte para bombardear sabe-se lá o quê. “Distância do objetivo” acarretaria praticamente as mesmas discussões.

- Estamos a trinta mil km do centro de Marte, transmitia a voz firme e anasalada de Paul.

E prosseguia:

- Vinte e oito mil...

- Vinte e quatro mil...

- Vinte e três mil e quinhentos quilômetros, mesma altura do primeiro satélite. Repetindo, vinte e três mil e quinhentos quilômetros, mesma altura do primeiro satélite. Quando receberem esta repetição de minha frase já teremos ultrapassado a altura do primeiro satélite.

Sendo humano, Paul não pode se impedir de uma brincadeira:

- Ultrapassamos o primeiro medo. Fobos, o satélite mais afastado de Marte, com este nome em grego, já está acima de nossas cabeças, infelizmente longe para qualquer contato visual.

A brincadeira de Paul não poderia ser repetida com o próximo satélite, Deimos, cujo nome em grego significa demônio, mas ele encontrou um correspondente capaz de arrepiar de benigna e benfazeja emoção cada ser humano da Terra que estivesse bem informado a respeito do passado de ficção que o planeta vermelho adquirira no azul:

- Nove mil, trezentos e cinqüenta quilômetros.

E então Paul fez sua primeira grande interrupção do que era narração meramente técnica e quebrou o protocolo. A severa névoa redemoinhante de areia vermelha rareava e abria focos de grande visibilidade aqui e ali, e cada vez mais. Os velhos deuses do planeta vermelho, se alguma vez existiram, ou a mera natureza, o que segundo muitos dos mais respeitados filósofos do maravilhoso planeta azul de onde chegava a primeira nave de visitantes, eram apenas uma e a mesma coisa, acondicionados em linguagens diferentes, bem, os velhos deuses ou a própria natureza abriam os braços num gesto cósmico de desvelamento que parecia um abrir os braços para uma nova era planetária. Foi um Paul com voz muito comovida que disse:

- Nove mil e trezentos quilômetros. Atenção, Terra, estamos cinqüenta quilômetros abaixo da Segunda, e portanto completamente abaixo...

O que era aquilo, era um soluço na voz de Paul? Provavelmente, porque com segundos de diferença, o que se ouviu foi a continuação da voz de Paul, chegando de um lugar situado a uma distância média de 64 milhões de quilômetros do planeta que as recebia;

- ...abaixo das luas de Marte. Repetindo: under the moons of Mars...

Um arrepio coletivo percorreu a pele dos habitantes do planeta azul. Tudo era silêncio, no qual flutuavam, imprecisos, os ecos contínuos daquelas palavras que chegavam aos corações e mentes dos homens mulheres e crianças, no mundo todo, de todas as cores de peles e matizes de emoções, desde homens de sobretudo ao redor dos televisores sobre os balcões dos bares de Manhatan ao interior das planícies da África, e à estepes da Ásia, aos pampas comuns ao sul da Argentina e do Brasil, e no Brasil pela primeira vez em dois séculos não havia nenhum surfista, garoto ou garota, dentro do mar. Estavam todos ao redor dos quiosques, das lojas de TV , dos rádios dos carros estacionados, ou simplesmente, para alívio dos pais naqueles tempos de violência e insegurança nas ruas, em casa com a família em frente aos televisores e às tigelas de pipoca avidamente devorada.

Em algum grupo amontoado ao redor de um dos carros, um dos garotos, empunhando sua lata de refrigerante, grita:

- Esta é do...

Ao que vários imediatamente fizeram:

- Sshhhh...

E pelo menos um gritou:

- CALA A BOCA.

Um solitário esquimó pescava num buraco feito no gelo, perto do pólo norte, ao lado de uma TV, sem suspender o peixe que já havia mordido o anzol.

Via Paul em close no vídeo, em imagem que viajara do polo sul de um planeta para o polo norte de outro, e sua voz:

- Interrompendo para procedimentos de rotina diante da nova faixa de proximidade atingida. Tempestade de areia cede, visão de contornos da calota em torno de setenta por cento da visão total. Visibilidade continuamente em expansão, e de forma rápida.

E, finalmente, a frase tão esperada pela humanidade:

- Preparando para pouso...

E, mais uma vez com um arrepio denunciado pela voz de quem enviava as palavras e compartilhado pelas pessoas que as ouviam:

- Preparando para pouso...E desligando conforme anunciado.

O momento de silêncio era dramático. A nave cortava não só a tênue atmosfera marciana, mas um denso silêncio remanescente.

Até que a voz de prata de Carmem comentou algo.

- Não havia necessidade de interromper já...

E, olhando para ele:

- Até porque você fala muito bem. Poderia chefiar qualquer departamento de relações públicas de agência espacial. Você às vezes até me parece mais um autor de ficção científica do que um astronauta...

- Quero fazer um comentário somente para ti, e eu me envergonharia de fazê-lo em frente a outros.

- Ah, a primeira declaração de amor feita por humanos abaixo das luas de Marte deve ser privativa do casal.

- Não se trata disto, responde um Paul visivelmente constrangido.

- Este é o ponto da história em que você vai me dizer que é um marciano?

A risada de Paul era serena, a voz se tornara novamente segura.

- Não, eu apenas vou dizer que não sou somente Paul.

- Alguma invasão de mente? Riu Carmem.

- Não. Você não pode adivinhar? Sorri Paul.

- Não. Apenas eu poderia ser dois porque sou mulher, mas não estou grávida e nem pretendo estar antes de voltar à terra. (E, curiosa:) Qual a brincadeira?

Ainda sorrindo, Paul pergunta:

- Você não pode adivinhar mesmo?

- Não. Mas se você quer continuar o suspense, mesmo com bom humor, eu talvez comece a ficar preocupada, até por causa da diminuição da atenção sobre os instrumentos.

- OK. Aí vai. Eu sou John Carter Hall...É um pseudônimo.

Em seu retorno, Paul poderia ficar razoavelmente rico com a revelação de que souber usar uma insônia relativa de forma totalmente criativa. Estava também explicado porque eram tão poucos os livros de Hall, ao contrário de outros do mesmo tipo, como algum prolífico Michael Moorcock

A humanidade, logo após a revelação, entraria em fase de maravilhado bom humor e otimismo: desta vez, era o próprio primeiro homem a ir a Marte que era o escritor de ficção científica. Isto superava até mesmo o clássico “Areias de Marte”, de Arthur C. Clarke, em que um escritor chamado Gibson ia a Marte, mas muito depois (E o livro foi lembrado por uns poucos ou muitos senhores que em sua juventude haviam lido ficção quando outro Gibson, o cientista, fez suas revelações sobre um dos meteoritos de Marte, na década de noventa).

- Sim, eu sou Carter Hall, dizia Paul com o sorriso que costumava freqüentar seu rosto com freqüência depois que iniciara esta nova fase de sua vida - Mas há algo que me deixa triste.

- Triste?

- Sim, triste. Você se deu conta de que ultrapassamos por toda a eternidade o momento histórico em que ainda era possível se escrever ficção sobre a chegada dos primeiros homens a Marte?

A frase parecia ser saudada pela natureza ou pelos velhos deuses do até ali mais misterioso de todos os planetas com um abrir absoluto da paisagem ao se encerrar totalmente a cerração, para em seguida começar a ter um rápido, instantâneo fechar de paisagem causado pela areia que subia empurrada pelo contrafluxo do jorro dos foguetes de pouso que subia do subsolo, e que logo cessaria, porque, com a fina e quase imperceptível ponta de decepção que acompanha o atingir um objetivo tão longamente sonhado, e porque não dizer o mais sonhado objetivo de qualquer ser humano, eles haviam pousado.

Um pouco antes, Paul ligara o transmissor para dizer a nova frase que levaria oito minutos para emocionar toda uma parcela de humanidade que realmente tivesse memória, graças á homenagem que ele continha ao que se passara num remoto ano dum já quase remoto, ou pelo menos semi-esquecido século:

- A águia pousou novamente...

A velha frase da Apolo anunciando o pouso na lua, repetida depois de tanto tempo, mesmo quando esquecida foi, afinal recordada e esclarecida por todos os atentos narradores e comentaristas ao redor do planeta. Muitos ou quase todos, ou todos, começavam a lacrimejar, abertamente.

O resto é história, por toda a história. E que história!

Como diriam tantos que tantas vezes a recontaram, citando uma frase da mais famosa entrega de prêmios que existia no planeta azul: o melhor realmente estava por vir...

Então era aquilo. Aquela paisagem vermelha como ferrugem por tudo, num efeito impressionante, que os filmes tantas vezes exibiram, mas que, ao se chegar lá, eram um choque maior, talvez pelo seu excedente em função da recente tempestade. Olhar para o alto também era gratificante: quanto mais sobre a cabeça de quem o fizesse, mais o céu se assemelhava ao azul da velha terra, que era também o azul previsto por Ray Bradbury na suprema obra de ficção sobre Marte, aquela que ficaria no panteão que abriga as obras que devem ficar: o panteão literário.

Então era aquilo. As impressionantes dobras das calotas polares, umas sobre as outras, em terraços e zigurates, formados, segundo se dizia, pelas gigantescas mutações ocorridas com a modificação axial ocorrida, provavelmente, várias vezes ocorridas.

Então era aquilo, gelo que crescia como gigantescos edifícios superpostos a uma altura que na terra seria impossível por causa da forte gravidade, e...

- Paul?

- Sim?

- Você ainda não falou?

- Não. Eu realmente não falei.

E, num murmúrio, sempre olhando à frente;

- Eu realmente não falei...

- É impressionante, não?

- É. É realmente impressionante. Ah, Carmem...

- Sim.

- Estamos falando da mesma coisa.

- Sim, estamos falando da mesma coisa. Os imensos gelos superpostos. Em aulas de instrução eles eram tão distantes, e agora aqui estão...

Ah, meu Deus, pensou Paul. Como eu preferiria que ela estivesse percebendo...

- Carmem?

- Sim...

A voz dela parecia diferente. Ela notara? Eles nem se olhavam, minúsculos insetos pousados numa casca de noz diante de uma gigantesca pedreira de gelo.

- Nós não estamos falando da mesma coisa...

- Como?!

- Não é o gelo que me chama a atenção, Carmem.

- Não é o gelo que...

E então, pelo gemido que ela soltou, ele percebeu. Ela vira.

Ele esperou um pouco. Ela precisaria de tempo, como ele precisara, para assimilar aquilo. A mais fácil maneira de matar alguém, sabiam todos os médicos e até mesmo alguns autores de enredos policiais, era administrar-lhe instantaneamente uma elevada dose de informação. Rápido, sem rastros, sem vestígios.

E ela, como ele, provavelmente seria rápida. Ou pelo menos tão lenta quanto.

E ela foi. Sua voz já estava natural quando falou.

- Mas o que é aquilo, afinal?

- É uma boa pergunta.

- Construção inteligente? Formação artificial?

O comportamento humano requer a palavra. É a palavra que carrega a compreensão do mundo para dentro de nossos cérebros, até mesmo quando se trata de matemática e física: “matéria atrai matéria...”

- Parece-me evidente que sim, Carmem.

Estar a dois, em qualquer que seja a situação, permite reações que são mera representação perante o outro e que, sozinhos, não faríamos jamais.

Ambos estavam com seus trajes espaciais – na verdade era para colocá-los que haviam interrompido a entrevista – e podiam se deslocar com certa rapidez mesmo dentro de roupas destinadas a enfrentar o prodigioso frio do pólo sul marciano – que afinal, como o da Terra, nem era tão intenso como durante muito tempo se pensara.

- Então vamos ver aquilo de perto.

- São estas as nossas ordens?

- Nossas ordens são explorar a calota polar sul de gelo e nela realizar experiências de coleta e análise que nos deixem fazer isto. Vamos lá?

- Nossas ordens são de nos mantermos afastados de qualquer possível construção inteligente ou formação artificial.

- E você pode garantir que aquilo é uma construção inteligente ou uma formulação artificial?

- Não. (E, com um suspiro): Aliás, sempre achei que construção inteligente é uma expressão tão maluca quanto ciências humanas. Por acaso existem ciências desumanas ou construções não inteligentes?

- Quanto a ciências desumanas não vou discutir, mas quanto a construções não inteligentes, qualquer aplicado estudante de arquitetura provavelmetne seria capaz de citar centenas.

Paul murmurou, quase inaudível:

- Arquitetura. Isto me lembra algo. Aquilo não lhe lembra algo? Um museu....

- Um museu, sim, um museu de arquitetura.

E, olhando um para o outro, gritaram, ao mesmo tempo:

- Gugenheim?

- Sim. Com quantos “g” se escreve isto?

- Não importa. Não vamos lavrar ata da descoberta, e nem precisamos escrever isto agora.

- Vamos lá?

- Agora que sabemos ser artificial...

- Não sabemos. E se soubéssemos...

- Nossas ordens.

- Ordens de gente que está a 64 milhões de quilômetros de distância.

- Ainda assim, são nossos superiores.

- Eu diria que superiores são aqueles que viajaram 64 milhões de...

- Com tecnologia deles, Carmem.

- Paul Harrison, você não vai me dizer que John Carter Hall vai querer ficar aqui.

- Eu não me chamo John Carter Hall.

- Chama-se, sim, Alguma parte de você, remota ou não, se chama John Carter Hall tanto quanto se chama Paul Harrison. E o que adianta ficar aqui? Você acha que viemos de 64 milhões de quilômetros para ficar parados em frente a uma construção vazia?

E então, Paul jogou sua última e débil carta de protesto.

- Ela não está vazia, Carmem.

O impacto da notícia fez Carmem sentar-se.

Paul chegou a sentir-se aliviado.

Carmem perguntou num fio de voz:

- Como não?

- Você esqueceu uma parte do treinamento. Em caso de construções, ver dentro...

- Sim, sim, o sensor de calor...

Carmem emudeceu.

Era possível ver no sensor, claramente delineado, um corpo, humano ou humanóide, deitado.

- O que é aquilo?

- É, quase certamente, o que parece.

- Ora, você não...

- Eu sim. Você é que não minha cara. Pólo, calota, gelo. Somente uma nave pousada muito próxima poderia ter um sensor sensibilizado por calor cercado de tamanha quantidade de gelo.

- Você quer dizer...

- Eu quero dizer que, seja aquilo o que for, foi preparado para ser percebido somente quando chegássemos, e não da terra, nem por nossas sondas.

- É absurdo. Há bilhões de anos não pode haver vida no planeta. Deve estar morto.

A voz de Paul era um fiapo:

- Se emite calor mesmo depois de morto, é, mais do que alienígena, extra-galático...Ou algo assim.

Mas ainda havia algo por vir, e veio.

- Carmem...

- Eu vi...

- Aquilo era...

- Era. A julgar pelo espectro de calor no sensor, ele levantou um braço.

- E acenou.

- Com aquela lentidão?

- Como você mesmo disse, ele deve ser um tanto velho.

E de repente, ambos pareciam sentir que todo o frio do pólo daquele distante corpo solar entrava roupas adentro.

Agra, Paul disse apenas:

- Vamos.

- E Carmem repetiu, na língua que voltava a lhe parecer estranha:

- Let´s go.

A construção realmente lembrava o prédio do museu com nome de arquiteto, ainda que um tanto vagamente. Não admira que Carmem não a visse. Era o que de mais ecológico se pudesse imaginar, de tudo quanto fosse visto.

Não imitava, mas configurava semelhanças de tal ponto com o gelo que mais parecia o próprio gelo, ainda que muito mais elegante em suas superposições de faces, justapostas lateralmente.

Sua cor branca era, como o ambiente ao redor, fria e gelada.

Com materiais de alpinistas, em pouco menos de uma hora e meia terrestre, alçaram-se sobre o gelo até a porta do – bem, prédio parecia uma palavra modesta para se aplicar a tanto.

Mas uma porta era uma porta, em qualquer parte do mundo ou de outro mundo, e sua alienígena arquitetura.

A esta porta se sucedia um amplo recinto, com alguns objetos.

Perplexos, eles estacaram. O que era afinal, aquilo?

- Você está vendo o que vejo?

- Estou...

- Não pode ser.

- Diga que pode não ser. Mas parece realmente ser...

- Livros?

- Livros??!! Então aquele cara não tem alguns bilhões de...

- Como saber? E a tradição?

- Como assim, tradição?. Tradição de alguns bilhões de...

- Ou vários...

- E que não é derrubada pela tecnologia...ONDE É QUE VOCÊ VAI, PAUL?

- Eu acho que vou ler um pouco de marciano...se você me permite.

- Ler? Com aquilo numa sala próxima? Ler? E o que vai entender?

- Não seja dramática. Vou apenas abrir...

Mas de repente começaram a desaparecer todas as obras. Simplesmente desaparecer.

- O que está acontecendo?

- Não sei. Era uma ilusão?

- Não. Era uma tecnologia que falava a nosso pensamentos. Não é uma ilusão. A imagem realmente existia ou....

- Ou o quê?

- As paredes...

- As paredes estão rachando, ou...

- Ou desaparecendo...

- A porta...

- A porta está desaparecendo, ou fechando, eu...eu não entendo...

- Nós não entendemos, Paul.

- E o que se faz quando não se entende...?

- Eu vou ver aquele cara, ou aquilo.

- Eu também.

- Rápido. Esta porta também está...

E então eles ficaram em frente ao homem, e por instantes tudo cessou seu rápido caminho em direção ao desaparecimento. Mas rachaduras apareciam aqui e ali.

- Quem é você?

A voz parecia vir de muito, muito longe. Era trêmula, mas de um tremor imenso, ancestral, e soava dentro de seus próprios cérebros em suas próprias línguas, no de Carmem oscilando entre o espanhol e o inglês, como uma escritura numa tela que se abre na rede de computadores no estágio inicial.

- Eu sou um homem muito velho...

Paul sentiu-se envergonhado pela pergunta. O quê é você realmente teria sido uma pergunta muito mais adequada: vigia, guardião, sentinela da eternidade...

- O que está acontecendo com o prédio?

- Vocês trouxeram corrosão...

- Micróbios? Ora, nossas vestes espaciais são rigorosamente esterilizadas a cada microsegundo.

- Não é isso. É corrosão atômica...A esterilização não alcança...

- Porque você está aqui?

- Sou o guardião da biblioteca que vocês destruíram com sua ignorância do que seja corrosão atômica...

- Como podemos sair daqui?

- Você destruiu o selecionado conhecimento de todo um mundo, de épocas incrivelmente anteriores ao seu planeta e quer apenas saber de sair e salvar-se a si. Não pode pensar no que se perdeu, e em quanto vocês e eu somos insignificantes diante disso?

Paul pensou e respondeu:

- Eu li o começo de cada um dos livros que havia ali e os reconheci.

Os olhos do velho de longas narinas brilharam como fogo:

- Como?

- O livro sobre a guerra e a paz, o livro sobre o príncipe que não consegue seu trono, o livro sobre o velho que não consegue mudar o mundo. E também o livro sobre o grande monstro dos mares e o homem que o procura apenas para se destruir....

O fogo parecia sair dos olhos do velho e se dirigir à mente de Paul.

- Jovem homem, você me fez feliz. Caso tenha olhado os livros, eu os transmiti, e esta era a minha missão.

Seus olhos aumentavam o brilho, parecendo apenas duas labaredas numa noite escura. As rachaduras aumentaram ao redor.

- E caso esteja me enganando, está me dizendo que mesmo uma cultura com tão pouco avanço que nos manda homens capazes de corroer por átomos sem perceber isto pelo menos já acharam os grandes arquétipos...

A voz de Carmem soou clara:

- Paul, o prédio está desabando...

A de Paul era respeitosa:

- Senhor, existe uma saída?

- Por ali...Diga-me vocês são do...

- Terceiro planeta...

Um debilitado sorriso veio aos lábios do homem:

- Não se deve falar assim a quem acaba de fornecer a confirmação dos arquétipos.

E, com a voz fraquejando:

- Você vieram do planeta azul. Aquele do grande satélite. Aquele que fez meus antepassados perceberem desde as eras remotas que algo não girava ao nosso redor e sim ao redor de seu belo planeta. Por causa dele, começamos a pensar sobre os céus de modo muito bom desde o início.

- Paul, o prédio...

Um estrondo surdo começava a gemer em todas as partes.

Sem vacilar, Paul e Carmem correram. Logo que saíram, correram. Nenhum dos destroços os atingiu.

Muito antes de chegar, haviam percebido que, em sua pressa, haviam deixado ligados todos os aparelhos de comunicação, inclusive os interpessoais. Queria dizer que, embora apenas eles tivessem visto o velho marciano, a terra inteira o escutara...

A primeira reação foi de terror e perplexidade. Logo recuperaram o bom humor que conforta os piores momentos e disseram quase juntos:

- Acho que vamos ter que procurar emprego.

Não era verdade. Nenhum outro astronauta foi tão cumprimentado quantos ambos, ainda antes de embarcarem de volta, e se é que o fariam jamais. No dia seguinte, votações nos congressos em quase todos os países da terra aumentaram a verba para viagens espaciais de forma condizente com o que se esperava do espaço, a partir de agora: Contato, mas com elementos eventualmente a nossa frente em tudo, e de forma a nos tornar humildes o suficiente para nos colocarmos de forma adequada no universo...

Quanto à frase do marciano ser a mesma frase de um velho livro de ficção científica, não causou tanto transtorno.

Em pleno século vinte e um, já começava a se aceitar que o universo não era apenas maior do que podemos imaginar, mas também muito mais estranho. Ou, como também já dissera provavelmente alguém , ou como afirmamos agora, em verdade estranho seria se estranho não fosse...

Esta conclusão poderia ser muito útil quando estivéssemos realmente adiantados e quiséssemos ir mais longe, em lugar de visitar lugares em nossos corpos solares meramente vizinhos. E tal dia chegaria.

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